26 abril, 2006

O Orelhas


Paulo Travassos

Parece um insulto mas é um elogio. No caso até serve de publicidade. O Paulo, é há trinta e seis anos um senhor de orelhas generosas. Desde o berço que a coisa se nota sem disfarce possível. Na escola, o baptismo não se fez esperar.
Os colegas, que conseguiam ser no mesmo dia o cúmulo da generosidade e o topo da crueldade, não lhe pouparam reparos à medida dos "abanos", e ele, divertido e despreocupado, que conviveu com a alcunha sem problemas ao longo de muitos anos aproveitou a deixa para a promissora carreira profissional. Hoje há um restaurante que se chama "O Orelhas", onde se come bem e se convive melhor. É dele e da família. Fica em Queijas e ninguém consegue fazer - perdoem o trocadilho fácil - orelhas moucas ao apelo. Razões não faltam.




Restaurante "O Orelhas", Queijas



A casa começou por se chamar Quicas, morava também em Queijas - na zona velha - e foi lá que conquistou a fama que hoje lhe rouba espaço . Não é fácil escapar à fila de apetites que se alinha diariamente à porta da nova morada. Continua a ser em Queijas, numa zona mais nobre, e deu lugar a um espaço renovado, com outra decoração e cheio de luz - coisa cada vez mais rara. Nos tempos do Quicas nem o aspecto mais "atascado" prejudicou alguma vez a qualidade primorosa de uma cozinha com muitos segredos. A servir à mesa desde 1997 - já lá vão 9 anos -, a simpática e afável família Travassos tem nas orelhas do Paulo o melhor cartão de visita. Razões para um sucesso que se alimenta dia a dia e que tem tudo parar durar.




Restaurante "O Orelhas", Queijas



Numa Revista Extra do Expresso, que se dedicou a provar os vinhos das garrafeira de restaurantes nacionais, "O Orelhas" conquistou um honroso décimo segundo lugar. E não pensem que foi um favor. Deitadinhas e devidamente acondicionadas na dita garrafeira há cerca de nove mil garrafas de pelo menos duzentas e vinte marcas diferentes. Pode encontrar, entre todas as preciosidades, um Barca Velha de 64. E até à colheita de 91 não se iniba de mandar vir uma garrafinha. Cuidado que nestes casos as contas costumam engordar mais que as barrigas que por lá se sentam com regularidade. Mas dias não são dias e um Barca Velha de vez em quando até nos faz esquecer as agruras que passámos para ganhar os trocaditos que lá vamos gastar. Que venha então uma garrafa. Ah é verdade, não há Visa.




António Travassos


O pai Travassos toma conta da cozinha. Os segredos só cabem nas receitas, quanto ao resto é feito com toda a arte ali bem à vista de todos. Quem não deve não teme, e com a limpeza que se nota em todos os cantinhos não há nada para esconder. Mas há muito para mostrar. Carne tenra e peixe fresco que sem demora hão-de cair na mesa. A espera é mínima desde que garanta um lugar. E garantir não é fácil.

O Travassos pai, António, andou anos a desmanchar carne para restaurantes - era artista no cortar -, agora aprimora-se nos temperos. Depois de quarenta anos a trabalhar para os outros abriu casa própria e é um ver se te avias. Não é homem de silêncios e não se cansa enquanto não ajuda o cliente a escolher a melhor opção. Não vende gato por lebre, mas tem uma Cabidela de Coelho de chorar por mais. E há Lebre, verdadeira, com feijoada e Castanhas. Mas há mais. Muito mais!




Restaurante "O Orelhas", Queijas



De garrafas estamos conversados. Se entre nove mil de mais de duzentas marcas diferentes não encontrar um vinho a contento, não se sente. Não se sente bem de certeza porque é proeza difícil e inimaginável. Se é dos que se contenta com uma aguinha ou um sumito, então faça favor, que o resto vem a caminho. E o resto começa nas Farinheiras e Chouriças, nos Pastelinhos de Bacalhau, Pézinhos de Coentrada, Croquetes e Rissóis. Sabores caseiros e ainda quentinhos. Um luxo! Segue-se um leque de escolhas com muitas opções: Arroz de Lampreia, Cozido à portuguesa, Massada de Jardineira ou de Garoupa, Secreto de Porco Preto, Peixe ao Sal, Bacalhau à Zé do Pipo e Feijoada de Choco. Da Feijoada de Lebre e da Cabidela de Coelho já lhe falei umas linhas atrás,. Nas sobremesas não há registo de novidades mas tudo o que se segue é caseiro e de paladar apurado: Sericáia com Ameixa, Barriga de Freira, Arroz Doce, Leite Creme e Salada de Frutas. No fim do repasto, faz companhia ao café uma aguardente de Marmelo - produção da casa - que podia chamar-se "Coice de Mula" ou coisa que o valha. O melhor é provar uma dose pouco generosa, não vá gostar e sair aviado para aventuras pouco honrosas e muito perigosas. E beber em demasia não faz mal apenas à condução. Em boa verdade não faz bem a quase nada.




Restaurante "O Orelhas", Queijas



Se optar por seguir a sugestão pode muito bem dizer que vai daqui. Ninguém lhe leva a mal mas também não ganha nada com isso. A simpatia é de borla e em doses iguais para todos. Lá na casa faltam clientes e sobram amigos. Um dos preferidos dos donos, benfiquistas, é o guarda-redes Moreira. Deixou lá um presente há uns tempos e a promessa ainda não foi cumprida: ainda não emolduraram a camisola assinada, com direito a dedicatória especial.




Restaurante "O Orelhas", Queijas



A casa fica em Queijas, na parte nova depois do Hotel Amazónia Jamor, Rua Cesário Verde, nº80, Loja F. O telefone é o 21 416 45 97. Servem-se refeições entre as 12.30 e as 16 horas, e entre as 19.30 e as 22.30. Não vá à espera de um local de luxo, porque vai encontrar apenas uma ementa confeccionada com todo o gosto, num local familiar onde se vai sentir em casa logo na primeira vez. Bom apetite!

21 abril, 2006

Viagem pela Blogosfera



Para os amantes de arte é, definitivamente, um blogue que vale a pena visitar.

squigglepage.blogspot.com

Quinta do Barranco da Estrada



Contribuição para o Blogue de José Valada

"(...) dar a conhecer um local onde recentemente passei uns dias de total evasão, um verdadeiro paraíso em Portugal, plantado à beira de água.
Chama-se Quinta do Barranco da Estrada, entre Odemira e Monchique junto à barragem de Santa Clara.
Um local que vale a pena conhecer e quiçá dar a conhecer. É uma pequena propriedade rural de um inglês (...).
Uma história de vida interessante e um refúgio da cidade a visitar sem hesitações.
"

Quinta do Barranco da Estrada



"As palavras de ordem são simplicidade, sossego e privacidade...A alimentação é também um prazer"
"VISÃO"

"O barulho fica a quilómetros de distância...Passar uns dias no paraíso..."
"COSMOPOLITAN"

"Paixão Alentejana. Existem sempre coisas para fazer...."
"VOLTA AO MUNDO"

"Um lugar inspirador...Excelente comida caseira"
"EVASÕES"

"O jantar é servido ao som dos rouxinóis nas árvores e das rãs no lago."
Revista "Country Living"

"Mais que um hotel, a Quinta oferece-lhe uma casa com uma ambiente familiar, no qual você é um convidado especial."
Revista "Destination Portugal"

O Fracasso do Amor


Fisherman's Blues - Expo, Lisboa - 2004-03-08
Foto André Antunes


Por agora é só um sonho. Um dia há-de ser um livro. Cabe neste blogue porque os livros também nos ajudam a viajar.


Capítulo 7


- Lucinda! Oh Lucinda! Porra mulher onde é que andas? Caramba! Raio da velha, só aparece quando não é precisa. Entornasse eu uma cerveja ou deixasse a beata moribunda beijar a mesa e vinha logo a correr só para me massacrar o juízo. Lucinda! Oh Lucinda! Anda cá caramba, ajeita-me aqui a almofada e traz a cerveja que vai começar o Benfica. Raça da velha! Se me descuidasse aparecia logo de nariz no ar a lamentar-se, que não tenho maneiras e que devia ir à casa de banho em vez de largar o cheiro pela casa. Nunca vem ninguém Lucinda, estás preocupada com quem? Comigo diz ela, que não tenho maneiras nenhumas e que não tenho remédio. Lucinda! Oh Lucinda! Se fosse para dar uma mola à vizinha de cima ou tomar conta do puto de baixo aparecia logo a correr, para mim é que nunca tem tempo. Birrenta! Que não devia andar de pijama em casa, que homem decente deve barbear-se. Eu?! Para quê?! Nunca cá vem ninguém Lucinda, só tu. E não sou gente diz ela? És, claro que és, mas daí até me vestir para ti vai uma distância mais longa que daqui ao Estádio da Luz. Lá é que eu devia estar, a ver o meu Benfica. Lucinda! Oh Lucinda!
- Oh pai, esteja calado, a mãe já cá não está.
- Não está? Onde é que foi?
- Foi viver um bocadinho já lá vão 13 anos. Já tomou os comprimidos?
- Já! Agora deixa-me ver o Benfica.
- Oh pai, o Benfica não joga hoje.
- Joga, joga. Se a tua mãe chegar diz-lhe que quero bacalhau assado.
- A mãe não vem. Agora durma e saia da varanda antes que os vizinhos façam queixa de si... por estar sem pijama.
- Estou à espera da tua mãe. Uma santa! Que falta me faz. Lucinda! Oh Lucinda! Não demores meu amor...

19 abril, 2006

A Caminho da Alemanha



Sei que o défice não ajuda, e que há mais onde gastar o pouco dinheirinho que nos resta depois de sermos quase "esfolados" pelos impostos, mas, para quem puder, cá está o guia de uma possível viagem à Alemanha, para ver a Selecção Portuguesa, e não só, no Mundial de Futebol Alemanha 2006. Se for o caso, Boa Viagem!

17 abril, 2006

Sem Palavras


Mulher transporta pedras
Bali, Indonésia
Setembro 2004

Maiorca


Magalluf, Palma de Maiorca
Espanha



Que se calem todos os que passam a vida a dizer que nunca se deve voltar onde já fomos felizes. Puro engano. No regresso a Maiorca, desde o primeiro minuto, percebemos desde logo que só mudou o que é preciso e que se manteve tudo o resto. A beleza de uma ilha paradisíaca de areia fina, limpa e dourada, de águas quentes, cristalinas e transparentes. Maiorca é uma ilha que nasceu e vive para o turismo de massas, mas que não se deixa enredar na loucura que os turistas trazem na bagagem.




Magalluf, Palma de Maiorca
Espanha



Maiorca organizou-se para receber cada vez melhor, com mais qualidade, simpatia e afabilidade. Saiba que na ilha é possível conviver com fertéis planícies e picos inóspitos, com largos areais e penhascos abruptos, com muito lazer e mais trabalho ainda.
O aeroporto de Palma é feito à medida de quem chega. E são muitos os que desembarcam diariamente ao longo dos 365 dias de cada ano. Moderno, arejado, organizado. Há espaço para dezenas de autocarros ao mesmo tempo. Viajámos da barafunda da Portela, em Lisboa, à tranquilidade de Palma em hora e meia. No aeroporto da ilha há um bulício sadio que se rege pelo compasso dos operadores de turismo que recebem gente dos quatro cantos deste mundo redondo. Estamos finalmente em férias e ainda não chegámos ao hotel.
O Twingo há-de fazer sempre parte do roteiro das nossas aventuras na ilha. O tecto desaparece num ápice para descansar sobre o vidro traseiro. Fica de férias como nós. O céu de Maiorca está sempre bonito e quente, de dia e de noite, e nós não desperdiçamos um segundo desta comunhão que nos agrada. Nas longas, largas e bem cuidadas estradas da ilha, havemos de deslizar outra vez como na primeira, despreocupados e deslumbrados. Em Maiorca é sempre possível um novo deslumbramento com uma velha imagem.




Calla em Palma de Maiorca
Espanha



Almoçar junto à praia não é, definitivamente, uma aventura. Há espaços bem cuidados e limpos, com esplanadas dignas do nome e serviço a condizer. O que pedimos corresponde ao boneco do menú, chega num abrir e fechar de olhos ao colo de um senhor de sorriso aberto e muitas graçolas na ponta da língua. O Porto, Figo e Rui Costa, o "bacalao com patatas", Lisboa e a famosa e apregoada simpatia lusitana servem para entremear a conversa cheia de pedidos urgentes, satisfeitos com afabilidade e diligência.
Há-de ser sempre assim na ilha onde até o café ainda chega quente. Mentem os que se queixam de mau trato por parte da "grande família espanhola" que se atropela neste albergue de verão. Há-de haver boas queixas de maus exemplos mas são apenas as excepções que não fazem regra. A ilha recebe quem chega da mesma forma, mesmo que sejamos os únicos portugueses com lata para nos sentarmos num bar alagado de alemães ainda mais alagados em cerveja e marisco. Quase não se nota. Somos um bocadinho mais silenciosos e discretos. Porque será então que estão a olhar ? Afinal talvez se note.
A menina Schiffer, modelo internacional, bonita e graciosa é também - e não será novidade nenhuma - uma senhora de bom gosto. Reza a lenda que se vê em dias bonitos empoleirada na sua vivenda luxuosa em Andratx. Será apenas nas pausas de uma vida cheia de glamour e atribulações. Andratx é um local bonito, com uma costa escarpada sobre um mar transparente, e onde sobressaem as torres de vigia empoleiradas na colina sobre a cidade de casas brancas e ocre. A cinco quilómetros, em Port d'Andratx, mora o luxo e a elegância. A antiga vila de pescadores é hoje poiso obrigatório para ricos e famosos, que passeiam os iates pelo mar e as "máquinas" por terrra. Gente que vive em casas de luxo, que parecem pequenas vistas de fora mas são enormes olhadas por dentro- no bom gosto e no tamanho. Andratx é um canto ideal para um conto...de fadas... como a menina Cláudia, modelo internacional, bonita e graciosa. Reza a lenda que se vê em dias bonitos empoleirada na sua vivenda luxuosa...




Calla em Palma de Maiorca
Espanha



O norte, tal como em Porugal, é a região mais bonita de uma ilha que não tem zonas menos belas. Em Maiorca a adjectivação para a beleza parte sempre de um patamar elevado. Há sempre um local belo, e outro que é mais belo ainda sem que o anterior possa desconsiderar-se. Alcúdia, Pollença e o Cabo Formentor são passagens obrigatórios num roteiro que não pode ficar-se pelas imediações do hotel. Há que abusar do Twingo e fazer render o aluguer diário. Este ficou íntimo de tanto convívio com a família.
A Baía de Pollença combina campos férteis, frescos e verdejantes, com um mar tranquilo, quente e em tons turquesa. Há uma montanha que espreita a Baía e que esconde o Cabo Formentor. Havemos de espreitar outra Baía, a do Cabo, depois de serpentear o asfalto sinuoso, num sobe e desce que se aconselha lento e cheio de cautelas. É de agitar o estômago dos mais fortes, mas vale a pena. Andámos duas horas no mar e menos de dez minutos na areia, dourada e limpa. É sempre assim em Maiorca, o Mediterrâneo aquece as águas que nos aquecem o corpo e a alma, e incendeiam paixões, mesmo as que andam mortiças. Terapia mais que aconselhável para casais há beira de um desgosto.




Calla em Palma de Maiorca
Espanha



As Callas, pequenas enseadas tranquilas, são um dos cartões de visita da ilha encantada. Há dezenas, cada uma mais bela que a outra. A Calla Ratjada abriga uma praia paradisíaca, uma das que podemos referir, sem medo do ridículo, nos questionários de verão que enxameiam os jornais, assustados pela calmaria excessiva do período estival. A Playa Agulla é paragem obrigatório no roteiro do norte, que no regresso tem de passar por Porto Cristo, com uma visita, também obrigatória, às grutas. Entre a bonita e moderna cidade de Palma -parece Madrid em ponto pequeno - e o Norte há dezenas de quilómetros de asfalto quente e bem tratado, com vista para vilas cuidadas e bonitas, rodeadas de campos fertéis em cereais e frutos. As vinhas, principalmente em torno de Binissalem, completam o ramalhete das fontes vitais de uma economia que se alimenta, de forma glutona, do turismo- profissional e agressivo, quase imbatível na relação qualidade/preço.
Para a história de mais uma viagem de boa memória fica uma casa de banho, pré-fabricada, perdida numa sombra de um parque de estacionamento da Playa Agulla. Limpíssima, sem cheiros - nem maus nem bons em excesso, que também incomodam -, sem inscrições nas portas e paredes. Um local agradável - dentro do género -, a condizer com a qualidade da praia. A senhora que parece distraída à porta, concentrada no seu tricô, junto à generosa caixa de gorjetas, não perde um segundo nas verificações pós-necessidades fisiológicas. Há uma esfregona que se farta de trabalhar para nosso prazer e satisfação. Uma casa de banho destas pode dar-nos a mesma sensação de um oásis no deserto.




Cidade de Palma Nova - Palma de Maiorca
Espanha



Em Maiorca, a cidade de Palma é um dos locais de excelência a não perder. A capital é bonita, elegante e charmosa, de uma riqueza cultural que não pode passar despercebida. Desde o tempo dos mouros que as fontes e os pátios são imagem de marca. Já lá vão mais de setecentos anos. Em 1229, depois da conquista, Jaime I não evitou o deslumbramento e escreveu:" Pareceu-me a mais bela cidade que jamais vi." Seria exagero, mas ainda hoje não passam despercebidas as igrejas sumptuosas, as mansões da cidade antiga, os enormes edifícios públicos, os cafés dignos do nome, verdadeiros locais de prazer e exemplos de bom gosto. A Catedral e a Basílica merecem uma visita, o Palácio de Almudaina, e a marginal, longa e cheia de glamour. Uma cidade ainda mais vaidosa desde que a equipa, em finais de Junho, chegou a casa com a Taça do Rei- troféu muito apetecido naquele que é considerado o futebol mais competitivo do mundo.
Junto à cidade há ainda a imperdível Marina de Portals Nous. Vilamoura será até mais bonita, mas menos rica em celebridades e ostentação.
O motor a roncar na pista e tu a repetires que havemos de voltar. Pois havemos, só os dois, em mais uma das muitas luas-de-mel que fizemos questão de partilhar antes da verdadeira. Nós sem filhos andámos uma semana em treinos. A Larinha quase virou o hotel ao contrário. Uma filha de um ex-ciclista e de uma brasileira só podia ter um pedal daqueles. O António e a Flávia precisavam mesmo de ajuda.
O motor a roncar na pista e tu a repetires que havemos de voltar. Pois havemos, só os dois, sem a Larinha de quem tanto gostamos a gastar-nos o parentesco. Tio para aqui, Tia para ali. E nós sem sobrinhos, tios emprestados.
O motor a roncar na pista e tu a repetires que havemos de voltar. Pois havemos, só os dois, para voltarmos à praia de Es Trenc, a última praia selvagem da ilha, onde o naturismo nos devolve os nús do Meco em versão castelhana.
O motor a roncar na pista e tu a repetires que havemos de voltar.
Pois havemos. Só os dois!




António Esteves e Andreia Duarte
Palma Nova, Palma de Maiorca
Espanha
Julho de 2005



E vão três verões na ilha. Juntos. Para ela já são oito. Ah pois...

16 abril, 2006

Diário de Bordo - Praga


Vista de Praga - da Ponte Carlos - Karlúv Most
Dezembro de 2005

Praga é sem dúvida uma das capitais mais bonitas da Europa.
Pela posição geopolítica privilegiada, no centro da Europa, foi sempre alvo de cobiça e palco de várias convulsões - a Primavera de Praga é um dos vários exemplos. A actual capital da República Checa conquistou uma importante riqueza cultural, arquitectónica, paisagística e social que apetece conhecer. O país, e a cidade em particular, tem uma história rica e recheada de episódios interessantes.
Franz Kafka e Vaclav Havel estão entre os filhos ilustres da nação que também viu nascer várias estrelas da constelação do futebol mundial como Poborski, Milan Baros e Nedved.


Cemitério no Bairro Judeu - Josefov - Praga
Dezembro 2005

A visita ao Bairro Judeu - Josefov - é um "murro no estômago" que nos alerta para a verdadeira tragédia humana que foi o Holocausto Nazi no centro da Europa.
Impossível esquecer o mural com todos os nomes - escritos à mão, um a um, a vermelho cor de sangue - das pessoas da cidade que pereceram às mãos dos nazis; ou a exposição de desenhos das crianças que acabaram em campos de concentração. Muitas não voltaram.



Ricardo, Andreia, Suzete, Pedro, Raúl e Andreia - Divertimo-nos à grande!
Praça da Cidade Velha, Staré Mesto, Praga
Dezembro de 2005




António Esteves
Praga
Dezembro 2005

Para voltar, sem dúvida!

14 abril, 2006

Sem Palavras


Pôr-do-sol no Cabo Espichel, Sesimbra
Outubro 2005

13 abril, 2006

Fotos Com História

Pelo tamanho do paquete dá para perceber que a experiência no teleférico não deixou saudades.


Teleférico, Ilha de Santorini, Grécia
Setembro 2005



Mas a vista vale o esforço.


Andreia Duarte e António Esteves
Ilha de Santorini, Grécia
Setembro 2005

O Fracasso do Amor

Por agora é só um sonho. Um dia há-de ser um livro. Cabe neste blogue porque os livros também nos ajudam a viajar.


Capítulo 17


Os passos ecoam no longo e escuro corredor, compassados e melancólicos. Toc, toc, toc... Avanço lentamente com medo do caminho que se vai encurtando a cada segundo. Sei que depois de um pequeno lanço de escadas voltaremos a cruzar-nos novamente, duas semanas depois. Ainda bem que não te vi no desvario que te conduziu até este sítio lúgubre e frio, que detestei desde o primeiro momento. O colete apertado e tu a gritar que não ias a lado nenhum sem mim. A voz sumiu-se, enrouqecida pelo descontrolo que te assumiu os gestos de um momento para o outro. A viagem na ambulância foi longa e silenciosa. Ninguém te ouviu uma palavra ou um protesto. Já estavas fechado no teu mundo novo onde entraste de repente, num piscar de olhos. Há vários dias que não abres a boca, nem p’ra comer. O doutor diz que não te conhece a voz. É pena, é tão bonita. As tuas palavras pareciam música quando me dizias que eu era a mulher que mais amavas. Conseguias dizê-lo sem soletrar, num tom suave e sereno que me dava alento e felicidade. Nem consigo imaginar-te aos berros, de mãos na cabeça, olhar perdido e gestos bruscos. Cinco pessoas a agarrar-te e tu aos gritos, que te largassem porque sem mim ninguém te levava. Levaram-te, mas não eras tu. Eras alguém que te domina desde esse dia e não sabemos quem. O médico diz que é uma doença vulgar. Que temos de viver com ela. Eu não me importo.
Cá estás tu. De robe e chinelos, cabelo despenteado e olhar perdido. Já não sorris. Os teus olhos não falam com os meus como antes. Pareces tontinho. As mãos nos bolsos e os pés trôpegos. Nem pareces tu. O médico diz que se estranha ao início mas depois habituamo-nos. Mas eu não quero. O que eu quero mesmo é que voltes depressa a seres como eras. Vou esperar o que for preciso mas não me resigno a ter-te assim. Tu já percebeste. Apertaste a minha mão como só nós sabemos. É o sinal secreto que usamos para falar sem que ninguém perceba.
Os passos ecoam no longo e escuro corredor, compassados e melancólicos. Toc, toc, toc... Avanço lentamente no caminho de regresso a casa que se vai encurtando a cada segundo. Sei que volto amanhã, mas não sei como fazer para não contar tantos e dolorosos minutos. Só, sem ti. Sem saber o que nos reserva o futuro. Espero que te deixem voltar em breve, para casa... e para mim.

Aqui Há Gato


Ilha de Mykonos, Grécia
Setembro 2005

Eternos viajantes.
Reis dos telhados e de muitas andanças.
Meigos amigos e companheiros assanhados.
São como os portugueses... estão em todo o lado, sempre à espreita de uma boa oportunidade.
Tu adoras e não te cansas de repetir:
"As pessoas que odeiam gatos, só podem ter sido ratos numa vida anterior."
Este é grego. De Mykonos. Quantas vidas lhe faltarão?

Sem Palavras


Pôr-do-sol em Bali, Indonésia
Setembro 2004

12 abril, 2006

Viajar

“De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens.(...)
Que viaje à volta do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo — entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.”

Almeida Garrett, in Viagens na Minha Terra





António Esteves
Aeroporto de Bali, Indonésia (A viagem mais longa)
Setembro de 2004



Abençoado dia em que, livre da opressão das paredes do meu quarto, me aventurei sem destino pela minha terra e outras além-mar.
Não serei uma Nau Catrineta mas já levo muito que contar.
Lá chegaremos.
Para trás ficam muitos destinos.
Sempre com ansiedade para partir e nenhuma pressa para voltar.

Itália, Argentina, Brasil, Uruguai, Venezuela, Cuba, República Dominicana, Espanha, França, Inglaterra, Grécia, Luxemburgo, República Checa, Polónia, Roménia, Bósnia, Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe, Marrocos, Mali, Burkina Faso, Mauritânia, Senegal, Turquia, Tunísia, Indonésia. Ilhas: Marguerita, Baleares, Gregas, Açores, Madeira

E ainda falta tanto para ver!



ALÔ VIAJANTES...AMIGOS,
Ao longo dos anos viajámos juntos. Viajámos muito e divertimo-nos à grande.
Mandem as fotos, comentários, textos. Eu publico. Tudo!

Abraços, beijinhos e Boas Viagens!

Madeira


Foto retirada do site www.madeiratourism.org

O voo rasante sobre o relevo acidentado da maior ilha do arquipélago, é o primeiro contacto com aquela a que chamam, com a maior justiça, a "Pérola do Atlântico". Epíteto corriqueiro e estafado, mas ajustado. Muitos anos depois do acidente que marcou a aviação comercial portuguesa e traumatizou para sempre os mais ansiosos e receosos, o renovado e rebaptizado aeroporto - que hoje é da Madeira e que foi de Santa Catarina -, é entrada privilegiada, agradável e segura para uma ilha paradisíaca, aberta ao exigente mundo do turismo.

Longe vão os tempos das emoções ao rubro, adrenalina ao máximo e nervos em franja, à medida que o avião iniciava a aproximação a uma mini-pista, onde não cabiam todos os aparelhos, onde não iam todos os pilotos. Onde poucos se sentiam à vontade, mesmo os mais habituados a voar com regularidade. Foi-se o momento da paragem cardíaca, por momentos, entre o primeiro toque logo nos centímetros iniciais do asfalto, até ao fim de uma interminável travagem de cortar a respiração. Sobrava pouca pista e muito mar a um passo, a um mísero passo, do abismo.

O que se segue é um relato de quatro dias no Funchal. Um relato exclusivamente na perspectiva de um turista acidental, que chega para o espectáculo de fim-de-ano numa baía mágica, encantada e mítica. Uma baía que abriu caminho ao povoamento do arquipélago, iniciado por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira no primeiro quinto do século XV. O tal em que cruzámos os mares para dar novos mundos ao mundo. A realidade da ilha, fora dos roteiros turísticos, fica para outras núpcias.



A simpatia, disponibilidade e boa disposição do povo madeirense é a primeira boa impressão que se herda do contacto inicial. E como gosta de dizer Jaime Gama: "Não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão".

A Madeira, profissionalizou-se no que sabe fazer melhor, receber forasteiros. As ruas estão impecavelmente limpas. As casas cuidadas com esmero. As lojas preparadas para responder a todas as necessidades de quem se vê, por vários dias, com bagagem reduzida. Os linhos bordados e as lãs, inapropriadas para um clima tão ameno, são raínhas na oferta de quem sabe o que procura. O vinho, o artesanato e a gastronomia completam o ramalhete para aguçar o consumismo dos visitantes.



A oferta de hotéis cresceu muito em poucos anos. Muito por culpa do Grupo Pestana - com raízes na Madeira. Há para todos os gostos, novos e renovados, chiques e mais modestos, clássicos e sofisticados, caros e baratos, com vista priveligiada e privilégios à vista. No fim do ano chega a haver mais de quarenta mil pessoas em busca do fogo-de-artifício que deslumbra o olhar - e corre mundo nas televisões, com lugar de destaque garantido -, a taxa de ocupação chega a ser de 97 por cento. Números de encher o bolso aos empresários, mas que não sossegam as angústias de um mercado cada vez mais preocupado com um país em tanga curta. Com um mundo em sobressalto. Mas, crise à parte, a Madeira, ao contrário do Algarve e de outros destino nacionais atractivos para os turistas, é motivo de orgulho para um país em crise acelerada de auto-estima, confiança e esperança. Merecedora de muitos elogios e poucos reparos, a ilha não se deixa confundir com tamanha confusão, não se deixa intimidar com tanta exigência nem se descuida nos cuidados que lhe merece quem paga. Há sempre um afável bom dia, em dialecto próprio, embrulhado num sorriso.



A poucos quilómetros do centro, com vista privilegiada sobre a baía e sobre a cidade que se veste de luzes a cada noite, há um resort e SPA que deve parte do seu sucesso a um homem valioso. Chama-se Philipe Boussert, é artista das lides culinárias, homem de fértil imaginação e dotes prodigiosos. Veio de França onde se especializou na sinfonia de tachos e panelas que tocou vários meses na ilha encantada. Com o apoio do Sr. Pires, um madeirense arrojado e cheio de genica que também andou por França em apurada formação, cortou com velhos hábitos e arejou a forma de estar à mesa. Tocavam os dois no mesmo tom e isso ajuda muito. Agora o Chefe chama-se Gilles Gali, mas garantem-me que a qualidade se mantém. O Choupanha Hills é um bom exemplo da qualidade a que chegou o turismo madeirense. Até à mesa. A ementa que se segue, e que me foi servida, é da autoria do referido mestre cuca. Mantém-se mas com várias novidades que vou revelar em breve. Juro que nunca vi o rosto de Phillipe Boussert, o tal cozinheiro, não me encolheram a conta nem me esticaram os privilégios. Não sou amigo do dono do resort, nem tenho estadia gratuita negociada em troca de tantos elogios. É a saudade de tão requintados sabores que me faz escrever desalmadamente neste tom elogioso e, confesso, talvez exagerado.



Ementa:

Creme de Batata Doce com Requeijão Fresco

Frango Recheado com Cogumelos e Molho Tandoori - prato entretanto abolido da ementa

Panacotta de Frutas da Madeira - um pudim gelado com três sabores: cacau, tomate inglês e mango, ou em alternativa

Moelheux de Chocolate com Doce Gelado de Amêndoas

Decidi acompanhar a coisa com um Vinha Grande, um Douro de 92, muito agradável até na relação qualidade/preço.



Este é um dos muitos exemplos de uma cozinha que nos cativa o palato, e a vista. São muito atraentes as soluções de decoração encontradas pelo dito senhor para as iguarias com que foi presenteando e seduzindo os hóspedes. Se dependesse apenas da cozinha- e atenção que me garantem que a qualidade se manté - eu voltaria, ainda hoje.



Para acertar a linha, depois de tanta gula em descontrolo, sobra o SPA com massagens para todos os gostos, ou um passeio nocturno pela cidade iluminada a preceito. Parece um presépio em tamanho-família. É um belo postal para acicatar a inveja dos nossos amigos que, em ano azarado, foram obrigados a vergar a mola enquanto tentamos dar um pontapé na crise que parece agudizar-se a cada dia que passa. É sem dúvida o cenário idílico para devolver o fôlego a um amor que ande pouco vigoroso, ou aproveitar as delícias de uma paixão que se mantém tão acesa como o fogo que arde e vê-se bem, na baía.

Não se esquece facilmente o espectáculo do célebre fogo-de-artifício do Funchal. Começa quinze minutos antes do minuto zero que recebe o novo ano, um pouco por toda a ilha. Perliminares que acabam num apogeu indescritível, com a prestimosa e deslumbrante colaboração de onze, onze paquetes de luxo que parecem querer esconder a crise com um fogacho gigante de alegria e esperança.

A Madeira está bem e recomenda-se. E não falo de questões políticas, como é evidente.

Fotos cedidas por Choupana Hills Resort e SPA

11 abril, 2006

Diário de Bordo - Rali Paris-Dacar

Rali Paris - Dacar
Bamako, Mali
Janeiro 2004





António Esteves, Jornalista SIC


"O deserto não se conta, vive-se"

"Um desafio para os que vão, um sonho para os que ficam"


Thierry Sabine, Organizador e fundador do Rallye
Morreu em 1986 na queda de um helicóptero





Renato Diehl, Repórter Imagem TV Globo
António Esteves, Jornalista SIC
Mário Cabrita, Repórter Imagem SIC



Mário Cabrita, Repórter de Imagem SIC

Maresia


Foto retirada do Site Junta Turismo Ericeira

Tem morada de excelência no cartão de visita, Ribamar, na Ericeira. Tem uma vista esplêndida sobre o mar, e tem uma Sopa de Peixe com Cenoura que não se esquece. Para os mais gulosos há uma proposta irrecusável: Fondue de Chocolate. Dê um safanão na preguiça numa das suas tardes de fim-de-semana, ajeite o camisolão de lã se for preciso e não se esqueça de levar um impermeável na bagagem, nunca se sabe!

Gostos não se discutem mas - entre almoços, lanches e jantares - eu prefiro a indolência das tardes, mesmo as de tempo menos risonho, para dar largas a um desporto nacional que me cativa e que pratico com agradável assiduidade: molengar. Conversar sem a ditadura dos minutos, comer bem e beber melhor. Há dias em que a palavra dieta não me soa bem e os nossos fígados estão cá para isto; para umas crises de vez em quando.

Não conhecemos o dono de lado nenhum, mas a simpatia é um dos melhores cartões de visita de qualquer casa e por isso ficamos bem impressionados logo no primeiro contacto. O Tó-Zé - lá na casa dispensam-se os formalismos - recebe-nos com um sorriso nos lábios e sem ementa nas mãos. Tem os sabores na ponta da língua e as palavras certas para uma sugestão irrecusável. Venha de lá então essa Sopa de Peixe de que tantos falam e que nunca me foi apresentada. Diz o Tó-Zé que não é igual às outras, não arrisca o auto-elogio mas lembra que é a diferença que lhe dita o sucesso. E diz bem. Já comi muitas sopas de peixe, mas nenhuma me deixou tantas saudades como a que dividimos, naquela tarde de cor cinzenta, com o mar a agitar-se em Ribamar.

É incrível como um dia da treta (como tu gostas de dizer) se transforma de repente numa tarde deliciosa só porque a sopa de peixe é diferente das outras. Tem muita cenoura e peixe em pedaços suculentos. E mais não digo. O aroma a maresia que vem lá de fora, embalado por uma brisa de gelar os ossos, confunde-se com os odores que se escapam da cozinha da Olga, quentinha e confortável. A sala herda a mistura e entorpece-nos os sentidos. Deve ser por isso que ficámos tanto tempo, e nem demos por isso.


Foto retirada do Site Junta Turismo Ericeira

A casa abriu em Julho, já lá vão quatro anos. Imagino que não fique tão bonita no pico do Verão. Será que, com a sala cheia, se observam com o mesmo prazer os detalhes artísticos que lhe vincam a identidade de que tanto gostamos? Os vidros largos iluminam o espaço. As mesas, pequeninas, vestem-se de individuais com padrões variados e coloridos: flores, riscas e quadrados. Há cinzeiros, puxadores e quadros de vidro trabalhado e pigmentado que lhe dão um toque muito original. A agradável e amena temperatura interior joga bem com as cores quentes da decoração: bege, vários tons de amarelo, ocre e terra. Há uma harmonia e uma serenidade que nos faz esquecer que lá fora, com o Inverno em assomos de grande vaidade, há um dia da treta que nos espera à saída. Vamos sair já de noite.

Anoitece cedo nos meses de manga curta - é pena! Já não se vê a fúria das ondas a fustigarem a praia de Ribamar. Essa mesmo onde os magos da prancha se exibem em acrobacias que contam para o campeonato. Nesse dia nem os mais corajosos se afoitaram em piruetas e outras cabriolas audaciosas. Não é medo do clima, é que os fatos de borracha travam o frio mas não protegem os ossos, e o mar não está para brincadeiras. Adiante. Ou melhor, de retro! Ainda estamos lá dentro na companhia de uma ementa, pouco ambiciosa, cheia de referências a delícias que se escondem no mar, e que saltam para a panela da cozinheira Olga sem grandes cerimónias. Os primores, toque e retoques vêm depois. As maravilhas que se podem fazer de colher em riste, com um miserável tacho, alguns ingredientes escolhidos a rigor e generosa imaginação. Ora aqui fica a listinha para que leve o pedido bem apurado e faça boa figura logo no pedido:

Sopa de Peixe, Queijo de Ovelha Grelhado, Mexilhões com Molho de Tomate, Lulas Grelhadas ou em Espetada com Camarão, Bife de Atum, Bacalhau numa espécie (é mesmo assim) de Caldeirada, Cherne Grelhado à lá Guilho, Arroz de Marisco com Lagosta, de Gambas de Polvo e de Tamboril, Dourada com Bacon, Espadarte Grelhado com Molho de Alcaparras, Fondue de Lombo com molhos diversos e fruta a companhar, Manta ou Lombinhos de Porco preto e Tarte de Maçã. Já referi no início mas neste caso não cai mal uma repetição, não se esqueça que lá na casa há um corta-linhas, ou um mata-dietas se preferir, o famoso Fondue de Chocolate com Frutos.

Naquele dia ficámos na dúvida. Revelamos o cantinho ou mantemos segredo para nos garantir um refúgio privado? Nã. Seria um segredo de polichinelo e não há amigo que nos perdoe uma trapaça destas. Preferimos o desassossego do lugar que uma bronca dos amigos. E nenhum dos que mais prezamos nos perdoaria a traição. Anda uma pessoa a vida inteira a pescar amigos à linha e depois rompe-se o cesto só por uma safadeza sem perdão.


Foto retirada do Site Junta Turismo Ericeira

Ora cá vai disto; da Ericeira para Ribamar corta-se à esquerda. Não se segue para a Praia dos Côxos, mais à direita há uma rua que desce, é a Rua dos Matinhos. O nº do sítio é o 261.865.697. Pronto. Assim como assim o segredo já era pequeno, as revistas da especialidade não perdoam e já avisaram os apreciadores do género de que há na Ericeira um local de muitos prazeres, onde se petisca de olho no mar com todo o conforto. Vai uma sopinha de peixe? Ai não...

Bairro Alto


Foto André Antunes


Os mais habituados às noites da capital chamam-lhe, intimamente, o Bairro. Para os outros, há que acrescentar Alto, para que se perceba que estamos a falar do topo de uma das sete colinas de Lisboa. O topo onde as noites são mais longas. Onde os dias mostram uma realidade completamente diferente - longe da boémia e da anestesia louca de uma animação sem limites. O Bairro são dois, sem grandes semelhanças; um à noite e outro de dia. A "Fauna" muda depois das 20 horas, e volta a mudar perto das 7 da manhã.


Entre as muitas maravilhas do Bairro, à noite, está a imensa variedade de oferta gastronómica. Nas artes do tempero e na beleza dos espaços. E nas histórias que se contam, de boca em boca, e que são parte da história de um bairro de má fama. Hoje menos. A morte de um jovem às mãos dos cabeças rapadas e as sessões contínuas de pancadaria obrigaram os governos a tomarem medidas. Drásticas. Hoje, no Bairro, há quase um polícia por cada esquina. Não garante segurança máxima, mas permite a dissuasão mínima. Ainda há ameaças, perigos vários e pancadaria para todos os gostos, mas nada que se pareça com o Far West de há uns anos. O Bairro viveu durante muitos anos da prostituição, das casas de fado, da paciência dos vizinhos, dos bares de culto para as várias tribos sociais, das bebedeiras dos betos e das trips dos junkies. E da gastronomia. Lá voltamos ao que nos traz aqui. A comidinha. Até a revista britânica Table Manners e o catálogo Luis Vuitton não conseguiram ignorar os petiscos que andam - e pode dizer-se aqui com toda a propriedade - de boca em boca no Bairro.

Na Travessa da Espera está um restaurante imperdível no roteiro das noites: a Primavera do Jerónimo. Espaço acanhado, muito apertado mesmo - há salas maiores em apartamentos -, mas onde sobra o bom gosto e o apuro no tempero. O que é afinal o mais importante. Franqueada a porta, entramos numa verdadeira casa de bonecas, onde mal cabem sentadas 15 pessoas. A decoração condiz com a história do local, é muito antiga. Entre outras preciosidades encontramos um relógio Kadum - tão antigo que o miolo já não é de fábrica -, um frigorífico com a bonita idade de 50 anos, uma ventoinha fora de época, várias fotos a preto e branco e outros utensílios com muita idade, hoje fora de moda mas que noutros tempos eram sinal de modernidade e sofisticação. A vida é assim, passa depressa, tanto que daqui a pouco, este momento, este preciso momento, já será passado. Entre as fotos atrás referidas, há uma que não passa despercebida. Lá está, sorridente, Josephine Baker. Consta que Juliette Gréco também provou as delícias da casa.



Foto André Antunes

Hoje propriedade de Helena Alves, a virtuosa cozinheira, e do marido, José Rafael, a Primavera era de um Jerónimo, também cozinheiro que andou na Primeira Guerra a tratar dos estômagos das tropas francesas. Acabada a guerra, com o sucesso dessa campanha na bagagem, Jerónimo armou-se de tachos e panelas e mais uns quantos talheres e fez-se ao forno a lenha, em Lisboa. Foi inquilino bem visto no Bairro até 1969. Depois de muitas tropelias do destino, o Jerónimo, restaurante, caiu nas mãos de Helena Alves, 45 anos, transmontana e familiar do primeiro dono do estabelecimento, o tal Jerónimo. D. Lena já é dona da casa desde 1980. São vinte seis anos de gastronomia transmontana com embaixada no coração de Lisboa - e tal como vamos ver daqui a pouco, a visita vale mesmo a pena. Logo em 1982 houve prémio lá na casa, um 2º lugar num concurso de especialidades - ganhou o Leite Creme. E ainda uma menção honrosa nas carnes - com uns magníficos Rojões à Transmontana. Pudera!

Caí lá por acaso, pela mão de um grande amigo e companheiro destas incursões gastronómicas - Deus te abençoe José Galvão. Ainda não sabia mas a garrafeira é seleccionadíssima. Há vinhos transmontanos e do Douro, preferencialmente. Mas existem também aquelas preciosidades que guardamos para momentos especiais. Nós, creio que nos contentámos com umas litradas de Cabeça de Burro. Mas há melhor, muito melhor.

Afiados os talheres e instalados os rabiosques, começaram a chegar os pratos escolhidos. Meu Deus! Não é fácil esquecer o primor e a qualidade daquelas Pescadinhas com Arroz e Salada. Parece coisa simples de nome, mas é divinal de paladar, e complicada de apuro. Há ainda Filetes de Pescada com Arroz de Cenoura, Perdiz Estufada à Serra Morena, Lulas Recheadas e Bacalhau à Braz. Do Cardápio constam ainda uns Lombinhos Fritos de Porco à Moda de Vinhais com molho de vinho e uma Omeleta ao Rum - um prato que já tinha dado a volta à cabeça aos tais soldados franceses.

Consta que, além de várias personalidades do antigo governo socialista de António Guterres, a casa é frequentada por Mário Soares e Miguel Sousa Tavares entre outros. Gente conhecida pelo bom gosto à mesa, cartão de visita garantido para a casa. Noutros tempos, quando a democracia ainda era uma actividade perigosa - perdão, mais perigosa -, os socialistas conspiravam na Primavera do Jerónimo. O PCP preferia a Trave, mesmo em frente. Outros tempos! Mantém-se a qualidade das cozinhas, mesmo sem o forno de lenha.

O Bairro merece muitas elogios e ainda mais visitas. Lá voltaremos! Em breve.

Santa Cruz


Praia de Santa Cruz
Região de Turismo do Oeste

As praias são como os chapéus -há muitas -, mas a verdade é que nem todas nos asssentam à medida. Catorze anos depois de ter aterrado pela primeira vez em Santa Cruz já não passo sem uma visita regular ao litoral oeste. E há outras coisas que já não dispenso: as fantásticas tostas de galinha do bar da Praia Azul, o Arroz de Marisco do Restaurante do Humberto, os grelhados do Barracão, um gelado no italiano Andrea nos dias mais confortáveis de verão, um cafézinho com vista para o mar na esplanada do Marés Vivas, um Irish Coffee no Bar do Manel nas noites mais agrestes, o típico Carnaval de Verão e o resto...tudo o resto.


Não há muitos locais - neste pequeno e por agora deprimido país - onde em poucas horas se assiste ao passar das quatro estações. E nem sempre aparecem com a ordem natural. Podemos começar o dia num inverno rigoroso e ter uma tarde solarenga, sem muito calor, com laivos suaves de um verão que nunca é constante. Nunca foi. Santa Cruz é terra de gente simples e tranquila, mas de clima temperamental e incerto. Quem gosta não falta, quem não aprecia evita o mais possível, e não entende o gosto por um local onde o sol e as nuvens nunca parecem entender-se o tempo suficiente para dar nome a uma estação. Mas há coisas de que não se gosta logo, não nos apaixonam no primeiro olhar, que nos vão cativando à medida que os dias passam e que se tornam insuportáveis na ausência. E Santa Cruz, elegante e sensual, pode não nos levar à certa logo no primeiro dia, mas vicia à medida que vamos coleccionando horas de prazer, junto ao mar, com rituais que são como a Coca-Cola - primeiro estranham-se, depois entranham-se.

Em Santa Cruz há dias que parecem noites, e noites tão amenas de fazer inveja a esses dias, mas também há marés calmas e dias com um sol radioso. Esses acabam depressa como qualquer uma das coisas boas que saboreamos na vida. É o mal das coisas saborosas, vão-se embora quando nos fazem falta e nunca chegam para nos adoçar os piores momentos, azedam ainda mais as ausências- são as saudades.



Praia de Santa Cruz
Região de Turismo do Oeste


É nos dias claros que me sabe melhor fazer a "Rota Saloia" que termina no centro da Vila. Um dia ideal pode começar no Restaurante do Humberto. Não se chama assim mas ele merece a deferência - o Restaurante chama-se Praia Azul. É gente boa, só as derrotas do Benfica é que lhe roubam o sorriso mas nunca lhe estragam a simpatia. Como é que apenas hora e meia mal digerida pode dar origem a tantos dias de azia? Ele lá sabe. O Arroz de Marisco é divinal, mas o Alfaquique com Açorda também não lhe fica atrás.É uma questão de gosto, o Arroz mais encorpado no gosto, o Alfaquique mais suave no travo. Nenhum dos exemplos se recomenda a uma dieta sem reparos.

O café pode ser no Marés Vivas. Não é nenhum exemplo de decoração nem há esmero no serviço, mas a vista compensa o que falta. Há uma varanda sobre o mar que se agita com os nervos em franja e os surfistas na garupa. Lá andam, teimosos. Só os melhores arriscam nos dias piores, como massa na sopa - como diz a célebre Mafalda do Quino-, cheios de gana e genica, enganados pelos remoínhos traiçoeiros e pelas ondas que se agigantam. Mas não desarmam. Nem nós. Estatelados nas cadeiras aproveitamos o sol, que vale ouro pela raridade naquelas paragens, e sabemos que a Berlenga à vista é sempre chuva na certa. É o que dizem os velhos, e eles, os lobos de um mar selvagem e pouco dado a carícias, nunca falham. É próprio dos velhos, quase nunca erram, nós é que raramente os ouvimos. Não fosse assim e havia menos desgostos. Os velhos falam e nós, surdos descuidados e imprudentes, amaldiçoamos a sorte- e às vezes sorte é apenas saber ouvir. O silêncio de um olhar ou o murmúrio suave de uma palavra experiente.

Há dias em que saem à rua os maníacos das velharias. Gente que foi coleccionando objectos valiosos que se oferecem agora por tuta e meia, expostos no asfalto. Alguns disfarçam a dor da separação no preço da troca. Nós, insensíveis, queremos sempre mais por menos, regateamos, insensíveis, e bastas vezes nem cuidamos da peça que adquirimos com o desvelo que merece.

A Feira das Velharias é ponto obrigatório na rotina de um fim de semana em câmara lenta. Sabe bem contemplar as peças em silêncio, quase tanto como o que enche a pequena capela da praça, bonita. É dos cuidados e mimos de gente com muita fé. Para quem acredita - e dispensam-se juízos de valor- é um espaço à medida de uma meditação suave e terapêutica: um silêncio quase total entremeado com o rugir das marés vivas e com os gritos das gaivotas. Um silêncio que morre no Verão com o bulício de gente em férias. E se agita ainda mais, em Agosto, quando o Carnaval da grande cidade, Torres Vedras, enche as medidas - pequenas - da pequena vila. Sobra gente para pouco espaço.



Praia de Porto Novo
Região de Turismo do Oeste


Nos dias mais bonitos há gelados de mil sabores no italiano. O Andrea, impaciente e nervoso, gesticula e não cuida dos limites sonoros nas palavras - à italiano -, mas sabe do ofício e faz gelados como ninguém - à italiana. Mas é na Praia Azul que se faz a melhor despedida de um dia que mereça. No bar tosco de madeira, comida pelo vento agreste que sopra com aroma a maresia. Há umas tostas de galinha com receita secreta que dão um sabor especial ao pôr-do-sol, bonito e tardio. É no Oeste que o sol se põem, é lá que os dias se demoram mais nas despedidas. Sabe bem ver os dias a cair e as noites a crescer por cima da linha do mar, que lá longe é mais calmo, e que se ouve sempre num murmúrio espumoso de quem reclama uma quota elevada nos prazeres que nos aliviam as dores, do corpo e da alma.

Noite cerrada aconselha-se um jantar no Barracão, no Paúl, na estrada para Torres Vedras. Não é inesquecível, mas tem uns grelhados apetitosos, e é sempre bom saber que a carne, tenrinha, é escolhida com muito esmero e mil cuidados. O Bar do Manel, no centro de Santa Cruz - já voltámos - parece um navio antigo, carcomido e lugúbre. Mas é quente e tranquilo, agradável. Ideal para uma noite de tempestade. Se a chuva gelada estiver a fazer estragos cá fora, é lá dentro que nos abrigamos. Há jogos, muito antigos, que nos lembram a idade que queremos esquecer - os anos há dias em que pesam muito - e bebidas para todos os gostos. Eu não dispenso o Irish Coffee, a escaldar. Gostos não se discutem. É o que diz o Humberto, o do restaurante da Praia Azul, que é do Benfica.

O Fracasso do Amor

Por agora é só um sonho. Um dia há-de ser um livro. Cabe neste blogue porque os livros também nos ajudam a viajar.


Capítulo 9

Sai de casa todos os dias pontualmente atrasado.Marca consigo próprio a uma hora imprópria e acaba sempre por sair mais tarde do que o previsto, distraído com qualquer coisa que aparece à última hora e que insiste em resolver no momento. Bem vistas as coisas não tem ninguém à espera. Só ele é que ainda se mantém na expectativa de que aconteça qualquer coisa que lhe devolva o que mais procura. E se marca uma hora é para não se afastar do tempo real que há muito corre mais depressa que a sua própria vida.
O sobretudo negro é companhia permanente no inverno. Quando as noites ficam mais amenas aceita trocá-lo por uma camisa de mangas longas, mas do cachecol nunca se livra. Tem medo que os desconhecidos que já o conhecem não o reconheçam noutros preparos. É por isso também que faz sempre o mesmo caminho todas as noites: desce a rua onde mora, segue pela avenida que melhor conhece e fica ali, horas a fio, em longos cumprimentos e demorados beijinhos, soprados com enlevo para os automobilistas, antes de voltar ao lar vazio de vida, mas cheio de memórias que o atormentam. Os grossos óculos negros de massa dão-lhe um ar desvairado e ausente, mas ele está sempre presente nas noites da capital em busca do tesouro que um dia lhe fugiu entre os dedos numa tarde boa de má memória. Os que lhe devolvem os beijos e os acenos, com sorrisos de escárnio e gargalhadas ruidosas, não sabem nem imaginam a tragédia que se esconde naqueles gestos que repete com desvelo. Em cada aceno e beijo que atira ao ar, sem destinatário definido, vai apenas um desejo: que o seu querido menino lhos devolva um dia, a provar que é mentira o que insistem em contar-lhe: que se foi ainda jovem, atirado para a berma por um acelera suicida. Foi assim que se abraçou à loucura e à ilusão que lhe fazem companhia... é com elas que dorme quando volta para casa, pontualmente atrasado, todas as noites.