11 abril, 2006

Diário de Bordo - Rali Paris-Dacar

Rali Paris - Dacar
Bamako, Mali
Janeiro 2004





António Esteves, Jornalista SIC


"O deserto não se conta, vive-se"

"Um desafio para os que vão, um sonho para os que ficam"


Thierry Sabine, Organizador e fundador do Rallye
Morreu em 1986 na queda de um helicóptero





Renato Diehl, Repórter Imagem TV Globo
António Esteves, Jornalista SIC
Mário Cabrita, Repórter Imagem SIC



Mário Cabrita, Repórter de Imagem SIC

Maresia


Foto retirada do Site Junta Turismo Ericeira

Tem morada de excelência no cartão de visita, Ribamar, na Ericeira. Tem uma vista esplêndida sobre o mar, e tem uma Sopa de Peixe com Cenoura que não se esquece. Para os mais gulosos há uma proposta irrecusável: Fondue de Chocolate. Dê um safanão na preguiça numa das suas tardes de fim-de-semana, ajeite o camisolão de lã se for preciso e não se esqueça de levar um impermeável na bagagem, nunca se sabe!

Gostos não se discutem mas - entre almoços, lanches e jantares - eu prefiro a indolência das tardes, mesmo as de tempo menos risonho, para dar largas a um desporto nacional que me cativa e que pratico com agradável assiduidade: molengar. Conversar sem a ditadura dos minutos, comer bem e beber melhor. Há dias em que a palavra dieta não me soa bem e os nossos fígados estão cá para isto; para umas crises de vez em quando.

Não conhecemos o dono de lado nenhum, mas a simpatia é um dos melhores cartões de visita de qualquer casa e por isso ficamos bem impressionados logo no primeiro contacto. O Tó-Zé - lá na casa dispensam-se os formalismos - recebe-nos com um sorriso nos lábios e sem ementa nas mãos. Tem os sabores na ponta da língua e as palavras certas para uma sugestão irrecusável. Venha de lá então essa Sopa de Peixe de que tantos falam e que nunca me foi apresentada. Diz o Tó-Zé que não é igual às outras, não arrisca o auto-elogio mas lembra que é a diferença que lhe dita o sucesso. E diz bem. Já comi muitas sopas de peixe, mas nenhuma me deixou tantas saudades como a que dividimos, naquela tarde de cor cinzenta, com o mar a agitar-se em Ribamar.

É incrível como um dia da treta (como tu gostas de dizer) se transforma de repente numa tarde deliciosa só porque a sopa de peixe é diferente das outras. Tem muita cenoura e peixe em pedaços suculentos. E mais não digo. O aroma a maresia que vem lá de fora, embalado por uma brisa de gelar os ossos, confunde-se com os odores que se escapam da cozinha da Olga, quentinha e confortável. A sala herda a mistura e entorpece-nos os sentidos. Deve ser por isso que ficámos tanto tempo, e nem demos por isso.


Foto retirada do Site Junta Turismo Ericeira

A casa abriu em Julho, já lá vão quatro anos. Imagino que não fique tão bonita no pico do Verão. Será que, com a sala cheia, se observam com o mesmo prazer os detalhes artísticos que lhe vincam a identidade de que tanto gostamos? Os vidros largos iluminam o espaço. As mesas, pequeninas, vestem-se de individuais com padrões variados e coloridos: flores, riscas e quadrados. Há cinzeiros, puxadores e quadros de vidro trabalhado e pigmentado que lhe dão um toque muito original. A agradável e amena temperatura interior joga bem com as cores quentes da decoração: bege, vários tons de amarelo, ocre e terra. Há uma harmonia e uma serenidade que nos faz esquecer que lá fora, com o Inverno em assomos de grande vaidade, há um dia da treta que nos espera à saída. Vamos sair já de noite.

Anoitece cedo nos meses de manga curta - é pena! Já não se vê a fúria das ondas a fustigarem a praia de Ribamar. Essa mesmo onde os magos da prancha se exibem em acrobacias que contam para o campeonato. Nesse dia nem os mais corajosos se afoitaram em piruetas e outras cabriolas audaciosas. Não é medo do clima, é que os fatos de borracha travam o frio mas não protegem os ossos, e o mar não está para brincadeiras. Adiante. Ou melhor, de retro! Ainda estamos lá dentro na companhia de uma ementa, pouco ambiciosa, cheia de referências a delícias que se escondem no mar, e que saltam para a panela da cozinheira Olga sem grandes cerimónias. Os primores, toque e retoques vêm depois. As maravilhas que se podem fazer de colher em riste, com um miserável tacho, alguns ingredientes escolhidos a rigor e generosa imaginação. Ora aqui fica a listinha para que leve o pedido bem apurado e faça boa figura logo no pedido:

Sopa de Peixe, Queijo de Ovelha Grelhado, Mexilhões com Molho de Tomate, Lulas Grelhadas ou em Espetada com Camarão, Bife de Atum, Bacalhau numa espécie (é mesmo assim) de Caldeirada, Cherne Grelhado à lá Guilho, Arroz de Marisco com Lagosta, de Gambas de Polvo e de Tamboril, Dourada com Bacon, Espadarte Grelhado com Molho de Alcaparras, Fondue de Lombo com molhos diversos e fruta a companhar, Manta ou Lombinhos de Porco preto e Tarte de Maçã. Já referi no início mas neste caso não cai mal uma repetição, não se esqueça que lá na casa há um corta-linhas, ou um mata-dietas se preferir, o famoso Fondue de Chocolate com Frutos.

Naquele dia ficámos na dúvida. Revelamos o cantinho ou mantemos segredo para nos garantir um refúgio privado? Nã. Seria um segredo de polichinelo e não há amigo que nos perdoe uma trapaça destas. Preferimos o desassossego do lugar que uma bronca dos amigos. E nenhum dos que mais prezamos nos perdoaria a traição. Anda uma pessoa a vida inteira a pescar amigos à linha e depois rompe-se o cesto só por uma safadeza sem perdão.


Foto retirada do Site Junta Turismo Ericeira

Ora cá vai disto; da Ericeira para Ribamar corta-se à esquerda. Não se segue para a Praia dos Côxos, mais à direita há uma rua que desce, é a Rua dos Matinhos. O nº do sítio é o 261.865.697. Pronto. Assim como assim o segredo já era pequeno, as revistas da especialidade não perdoam e já avisaram os apreciadores do género de que há na Ericeira um local de muitos prazeres, onde se petisca de olho no mar com todo o conforto. Vai uma sopinha de peixe? Ai não...

Bairro Alto


Foto André Antunes


Os mais habituados às noites da capital chamam-lhe, intimamente, o Bairro. Para os outros, há que acrescentar Alto, para que se perceba que estamos a falar do topo de uma das sete colinas de Lisboa. O topo onde as noites são mais longas. Onde os dias mostram uma realidade completamente diferente - longe da boémia e da anestesia louca de uma animação sem limites. O Bairro são dois, sem grandes semelhanças; um à noite e outro de dia. A "Fauna" muda depois das 20 horas, e volta a mudar perto das 7 da manhã.


Entre as muitas maravilhas do Bairro, à noite, está a imensa variedade de oferta gastronómica. Nas artes do tempero e na beleza dos espaços. E nas histórias que se contam, de boca em boca, e que são parte da história de um bairro de má fama. Hoje menos. A morte de um jovem às mãos dos cabeças rapadas e as sessões contínuas de pancadaria obrigaram os governos a tomarem medidas. Drásticas. Hoje, no Bairro, há quase um polícia por cada esquina. Não garante segurança máxima, mas permite a dissuasão mínima. Ainda há ameaças, perigos vários e pancadaria para todos os gostos, mas nada que se pareça com o Far West de há uns anos. O Bairro viveu durante muitos anos da prostituição, das casas de fado, da paciência dos vizinhos, dos bares de culto para as várias tribos sociais, das bebedeiras dos betos e das trips dos junkies. E da gastronomia. Lá voltamos ao que nos traz aqui. A comidinha. Até a revista britânica Table Manners e o catálogo Luis Vuitton não conseguiram ignorar os petiscos que andam - e pode dizer-se aqui com toda a propriedade - de boca em boca no Bairro.

Na Travessa da Espera está um restaurante imperdível no roteiro das noites: a Primavera do Jerónimo. Espaço acanhado, muito apertado mesmo - há salas maiores em apartamentos -, mas onde sobra o bom gosto e o apuro no tempero. O que é afinal o mais importante. Franqueada a porta, entramos numa verdadeira casa de bonecas, onde mal cabem sentadas 15 pessoas. A decoração condiz com a história do local, é muito antiga. Entre outras preciosidades encontramos um relógio Kadum - tão antigo que o miolo já não é de fábrica -, um frigorífico com a bonita idade de 50 anos, uma ventoinha fora de época, várias fotos a preto e branco e outros utensílios com muita idade, hoje fora de moda mas que noutros tempos eram sinal de modernidade e sofisticação. A vida é assim, passa depressa, tanto que daqui a pouco, este momento, este preciso momento, já será passado. Entre as fotos atrás referidas, há uma que não passa despercebida. Lá está, sorridente, Josephine Baker. Consta que Juliette Gréco também provou as delícias da casa.



Foto André Antunes

Hoje propriedade de Helena Alves, a virtuosa cozinheira, e do marido, José Rafael, a Primavera era de um Jerónimo, também cozinheiro que andou na Primeira Guerra a tratar dos estômagos das tropas francesas. Acabada a guerra, com o sucesso dessa campanha na bagagem, Jerónimo armou-se de tachos e panelas e mais uns quantos talheres e fez-se ao forno a lenha, em Lisboa. Foi inquilino bem visto no Bairro até 1969. Depois de muitas tropelias do destino, o Jerónimo, restaurante, caiu nas mãos de Helena Alves, 45 anos, transmontana e familiar do primeiro dono do estabelecimento, o tal Jerónimo. D. Lena já é dona da casa desde 1980. São vinte seis anos de gastronomia transmontana com embaixada no coração de Lisboa - e tal como vamos ver daqui a pouco, a visita vale mesmo a pena. Logo em 1982 houve prémio lá na casa, um 2º lugar num concurso de especialidades - ganhou o Leite Creme. E ainda uma menção honrosa nas carnes - com uns magníficos Rojões à Transmontana. Pudera!

Caí lá por acaso, pela mão de um grande amigo e companheiro destas incursões gastronómicas - Deus te abençoe José Galvão. Ainda não sabia mas a garrafeira é seleccionadíssima. Há vinhos transmontanos e do Douro, preferencialmente. Mas existem também aquelas preciosidades que guardamos para momentos especiais. Nós, creio que nos contentámos com umas litradas de Cabeça de Burro. Mas há melhor, muito melhor.

Afiados os talheres e instalados os rabiosques, começaram a chegar os pratos escolhidos. Meu Deus! Não é fácil esquecer o primor e a qualidade daquelas Pescadinhas com Arroz e Salada. Parece coisa simples de nome, mas é divinal de paladar, e complicada de apuro. Há ainda Filetes de Pescada com Arroz de Cenoura, Perdiz Estufada à Serra Morena, Lulas Recheadas e Bacalhau à Braz. Do Cardápio constam ainda uns Lombinhos Fritos de Porco à Moda de Vinhais com molho de vinho e uma Omeleta ao Rum - um prato que já tinha dado a volta à cabeça aos tais soldados franceses.

Consta que, além de várias personalidades do antigo governo socialista de António Guterres, a casa é frequentada por Mário Soares e Miguel Sousa Tavares entre outros. Gente conhecida pelo bom gosto à mesa, cartão de visita garantido para a casa. Noutros tempos, quando a democracia ainda era uma actividade perigosa - perdão, mais perigosa -, os socialistas conspiravam na Primavera do Jerónimo. O PCP preferia a Trave, mesmo em frente. Outros tempos! Mantém-se a qualidade das cozinhas, mesmo sem o forno de lenha.

O Bairro merece muitas elogios e ainda mais visitas. Lá voltaremos! Em breve.

Santa Cruz


Praia de Santa Cruz
Região de Turismo do Oeste

As praias são como os chapéus -há muitas -, mas a verdade é que nem todas nos asssentam à medida. Catorze anos depois de ter aterrado pela primeira vez em Santa Cruz já não passo sem uma visita regular ao litoral oeste. E há outras coisas que já não dispenso: as fantásticas tostas de galinha do bar da Praia Azul, o Arroz de Marisco do Restaurante do Humberto, os grelhados do Barracão, um gelado no italiano Andrea nos dias mais confortáveis de verão, um cafézinho com vista para o mar na esplanada do Marés Vivas, um Irish Coffee no Bar do Manel nas noites mais agrestes, o típico Carnaval de Verão e o resto...tudo o resto.


Não há muitos locais - neste pequeno e por agora deprimido país - onde em poucas horas se assiste ao passar das quatro estações. E nem sempre aparecem com a ordem natural. Podemos começar o dia num inverno rigoroso e ter uma tarde solarenga, sem muito calor, com laivos suaves de um verão que nunca é constante. Nunca foi. Santa Cruz é terra de gente simples e tranquila, mas de clima temperamental e incerto. Quem gosta não falta, quem não aprecia evita o mais possível, e não entende o gosto por um local onde o sol e as nuvens nunca parecem entender-se o tempo suficiente para dar nome a uma estação. Mas há coisas de que não se gosta logo, não nos apaixonam no primeiro olhar, que nos vão cativando à medida que os dias passam e que se tornam insuportáveis na ausência. E Santa Cruz, elegante e sensual, pode não nos levar à certa logo no primeiro dia, mas vicia à medida que vamos coleccionando horas de prazer, junto ao mar, com rituais que são como a Coca-Cola - primeiro estranham-se, depois entranham-se.

Em Santa Cruz há dias que parecem noites, e noites tão amenas de fazer inveja a esses dias, mas também há marés calmas e dias com um sol radioso. Esses acabam depressa como qualquer uma das coisas boas que saboreamos na vida. É o mal das coisas saborosas, vão-se embora quando nos fazem falta e nunca chegam para nos adoçar os piores momentos, azedam ainda mais as ausências- são as saudades.



Praia de Santa Cruz
Região de Turismo do Oeste


É nos dias claros que me sabe melhor fazer a "Rota Saloia" que termina no centro da Vila. Um dia ideal pode começar no Restaurante do Humberto. Não se chama assim mas ele merece a deferência - o Restaurante chama-se Praia Azul. É gente boa, só as derrotas do Benfica é que lhe roubam o sorriso mas nunca lhe estragam a simpatia. Como é que apenas hora e meia mal digerida pode dar origem a tantos dias de azia? Ele lá sabe. O Arroz de Marisco é divinal, mas o Alfaquique com Açorda também não lhe fica atrás.É uma questão de gosto, o Arroz mais encorpado no gosto, o Alfaquique mais suave no travo. Nenhum dos exemplos se recomenda a uma dieta sem reparos.

O café pode ser no Marés Vivas. Não é nenhum exemplo de decoração nem há esmero no serviço, mas a vista compensa o que falta. Há uma varanda sobre o mar que se agita com os nervos em franja e os surfistas na garupa. Lá andam, teimosos. Só os melhores arriscam nos dias piores, como massa na sopa - como diz a célebre Mafalda do Quino-, cheios de gana e genica, enganados pelos remoínhos traiçoeiros e pelas ondas que se agigantam. Mas não desarmam. Nem nós. Estatelados nas cadeiras aproveitamos o sol, que vale ouro pela raridade naquelas paragens, e sabemos que a Berlenga à vista é sempre chuva na certa. É o que dizem os velhos, e eles, os lobos de um mar selvagem e pouco dado a carícias, nunca falham. É próprio dos velhos, quase nunca erram, nós é que raramente os ouvimos. Não fosse assim e havia menos desgostos. Os velhos falam e nós, surdos descuidados e imprudentes, amaldiçoamos a sorte- e às vezes sorte é apenas saber ouvir. O silêncio de um olhar ou o murmúrio suave de uma palavra experiente.

Há dias em que saem à rua os maníacos das velharias. Gente que foi coleccionando objectos valiosos que se oferecem agora por tuta e meia, expostos no asfalto. Alguns disfarçam a dor da separação no preço da troca. Nós, insensíveis, queremos sempre mais por menos, regateamos, insensíveis, e bastas vezes nem cuidamos da peça que adquirimos com o desvelo que merece.

A Feira das Velharias é ponto obrigatório na rotina de um fim de semana em câmara lenta. Sabe bem contemplar as peças em silêncio, quase tanto como o que enche a pequena capela da praça, bonita. É dos cuidados e mimos de gente com muita fé. Para quem acredita - e dispensam-se juízos de valor- é um espaço à medida de uma meditação suave e terapêutica: um silêncio quase total entremeado com o rugir das marés vivas e com os gritos das gaivotas. Um silêncio que morre no Verão com o bulício de gente em férias. E se agita ainda mais, em Agosto, quando o Carnaval da grande cidade, Torres Vedras, enche as medidas - pequenas - da pequena vila. Sobra gente para pouco espaço.



Praia de Porto Novo
Região de Turismo do Oeste


Nos dias mais bonitos há gelados de mil sabores no italiano. O Andrea, impaciente e nervoso, gesticula e não cuida dos limites sonoros nas palavras - à italiano -, mas sabe do ofício e faz gelados como ninguém - à italiana. Mas é na Praia Azul que se faz a melhor despedida de um dia que mereça. No bar tosco de madeira, comida pelo vento agreste que sopra com aroma a maresia. Há umas tostas de galinha com receita secreta que dão um sabor especial ao pôr-do-sol, bonito e tardio. É no Oeste que o sol se põem, é lá que os dias se demoram mais nas despedidas. Sabe bem ver os dias a cair e as noites a crescer por cima da linha do mar, que lá longe é mais calmo, e que se ouve sempre num murmúrio espumoso de quem reclama uma quota elevada nos prazeres que nos aliviam as dores, do corpo e da alma.

Noite cerrada aconselha-se um jantar no Barracão, no Paúl, na estrada para Torres Vedras. Não é inesquecível, mas tem uns grelhados apetitosos, e é sempre bom saber que a carne, tenrinha, é escolhida com muito esmero e mil cuidados. O Bar do Manel, no centro de Santa Cruz - já voltámos - parece um navio antigo, carcomido e lugúbre. Mas é quente e tranquilo, agradável. Ideal para uma noite de tempestade. Se a chuva gelada estiver a fazer estragos cá fora, é lá dentro que nos abrigamos. Há jogos, muito antigos, que nos lembram a idade que queremos esquecer - os anos há dias em que pesam muito - e bebidas para todos os gostos. Eu não dispenso o Irish Coffee, a escaldar. Gostos não se discutem. É o que diz o Humberto, o do restaurante da Praia Azul, que é do Benfica.

O Fracasso do Amor

Por agora é só um sonho. Um dia há-de ser um livro. Cabe neste blogue porque os livros também nos ajudam a viajar.


Capítulo 9

Sai de casa todos os dias pontualmente atrasado.Marca consigo próprio a uma hora imprópria e acaba sempre por sair mais tarde do que o previsto, distraído com qualquer coisa que aparece à última hora e que insiste em resolver no momento. Bem vistas as coisas não tem ninguém à espera. Só ele é que ainda se mantém na expectativa de que aconteça qualquer coisa que lhe devolva o que mais procura. E se marca uma hora é para não se afastar do tempo real que há muito corre mais depressa que a sua própria vida.
O sobretudo negro é companhia permanente no inverno. Quando as noites ficam mais amenas aceita trocá-lo por uma camisa de mangas longas, mas do cachecol nunca se livra. Tem medo que os desconhecidos que já o conhecem não o reconheçam noutros preparos. É por isso também que faz sempre o mesmo caminho todas as noites: desce a rua onde mora, segue pela avenida que melhor conhece e fica ali, horas a fio, em longos cumprimentos e demorados beijinhos, soprados com enlevo para os automobilistas, antes de voltar ao lar vazio de vida, mas cheio de memórias que o atormentam. Os grossos óculos negros de massa dão-lhe um ar desvairado e ausente, mas ele está sempre presente nas noites da capital em busca do tesouro que um dia lhe fugiu entre os dedos numa tarde boa de má memória. Os que lhe devolvem os beijos e os acenos, com sorrisos de escárnio e gargalhadas ruidosas, não sabem nem imaginam a tragédia que se esconde naqueles gestos que repete com desvelo. Em cada aceno e beijo que atira ao ar, sem destinatário definido, vai apenas um desejo: que o seu querido menino lhos devolva um dia, a provar que é mentira o que insistem em contar-lhe: que se foi ainda jovem, atirado para a berma por um acelera suicida. Foi assim que se abraçou à loucura e à ilusão que lhe fazem companhia... é com elas que dorme quando volta para casa, pontualmente atrasado, todas as noites.

Alentejo

É por ele que vamos. Pelo silêncio de ouro, riqueza máxima da nossa paciência desgastada por dias e dias de uma guerra diária, e ainda longínqua, que nos entra pelas televisões aos soluços e que vai crescendo em sobressalto. É por ele que vamos, pelo som ausente dessa angústia que nos enche o écran a cada hora - o som da guerra que mata. Na morte também há silêncio, mas nós procuramos a tranquilidade em vida, sem perigos nem desassossegos.

Procuramos um palmo de terra onde não descansaremos eternamente, e ainda bem, mas onde vamos pousar os esqueletos para um repouso mais que merecido. Alguém diz que é no Alentejo que sabe bem não fazer nada. Que lá o descanso rende mais que o petróleo do Iraque. Terra de molezas e outros prazeres, o Alentejo é também o aconchego de gente que trabalha de sol a sol e que não merece a fama de preguiçar desalmadamente. É nos rostos morenos de quem faz da planície morada permanente que está a prova de uma vida digna, de muito esforço e pouco ócio.

Os povos são o que são e adaptam-se ao clima que os acolhe. E se é verdade que este cantinho à beira do Atlântico é tão pequeno que se mede sem grandes trabalhos, também não será menos verdade que é possível encontrar climas diversos nesta nesga de pátria. E o alentejano - o clima - é impiedoso e castigador.

Ai de quem se obriga ao arar da terra debaixo do astro que abrasa e não perdoa nenhum descuido. Num destes verões, de costas a descoberto, parecia que uma labareda caída do céu me tinha vindo morder a pele. Apressei-me a ajeitar o agasalho e percebi o que deve sofrer quem tem de se sujeitar a horas sem conta a estes tormentos para plantar na planície o dourado que tanto amamos. É o verde que se queima depressa e nos dá as tonalidades próprias que baptizaram os campos de "planícies douradas". É por isso que as azinheiras e os sobreiros das anedotas são muito úteis para uma sesta ao fresco, não por preguiça, apenas para retempero das forças que faltam muito cedo.

Ai de quem não tenha água fresca trancada no cântaro de barro com rolha de cortiça para saborear numa das raras sombras que salpicam o horizonte queimado pelo brasido. Os alentejanos não preguiçam, repousam e retemperam-se para novas trabalheiras. Essa é que é essa!




Jorge Correia Santos

Saímos de manhã. Para ti já é tarde. Custa-me madrugar e para mim às dez é cedinho. Não há sol para aquecer a viagem mas vamos na mesma. A música quase não se ouve, mas as melodias vão embalando a viagem que decidimos fazer em marcha lenta. Estamos a saborear um dos raros momentos em que o relógio não marca o passo e por isso nem queremos saber o que dizem os ponteiros. Não dizem nada. Dizemos nós que queremos parar em Montemor para o almoço.

Por desventuras que agora não vêm ao caso acabamos em Évora, com o céu num choro diluviano e nós a correr pelas ruas de uma das cidades mais bonitas do país. Temos fome e acabamos abrigados perto da morada que o Luís Rêgo nos deu, à pressa, pelo telefone. Como é que um alentejano consegue falar tão depressa? Ele fala, em cinco minutos deu três sugestões e nenhuma servia. Mas que diabo não há restaurantes abertos em Évora aos sábados à tarde? Há sim senhor, diz o Rêgo. E se ele diz. Ele diz até muitas coisas, mas costuma acertar mais quando fala para a televisão. O Rêgo - diacho de apelido - é o homem da SIC no Alentejo, ele e o Xô Rebêro (Sr. Ribeiro) fazem uma parelha infernal de jornalistas. Logo hoje é que aquelas almas não acertam uma e nos fazem correr as ruas, belas sem dúvida, de Évora.

Abrigados no telheirinho do Botequim da Mouraria decidimos entrar. Meu Deus não pode ser! Estamos enganados. Pois estamos! É um café. Só tem balcão. É para almoçar? Pergunta um senhor de ar divertido. Era, mas já vi que não podemos. Podem sim senhor, façam favor de se sentar! Olha pois é, não há mesas. A um canto do balcão está o Fernando Madrinha do Expresso. Bom sinal penso eu. E pensei bem. Sendo o Expresso autor de alguns dos melhores guias que conheço, de quase tudo, estranho seria que um dos responsáveis pela coisa se deixasse enganar. Não deixou.

Logo na entrada uma coisa de que gostas tanto. Queijo. Mas este não é um queijo qualquer. A menina gostou? Hummm?! Xim, xim... Ai não gostou! Logo tu que adoras queijo. Mas este é sem dúvida algo de extraordinário. Este vai ao lume, fica derretido e leva um tempero delicioso. Só provando. Indescritível!



Jorge Correia Santos





O sítio não é um restaurante comum, pode dizer-se que é um snack-bar com uma garrafeira de fazer inveja e muitos petiscos. Presunto de Barrancos, Farinheira Assada, Queijinho de Ovelha, Ovinhos de Codorniz com Paio de Porco Preto, Ovos Mexidos com Espargos Bravos e Torresmos de Rissol. Ao almoço, servem também pratos regionais, como Sopa de Cação, Migas de Espargos com Carne de Porco, e os pratos de Caça. Em sobremesas: Queijadas de Évora ou Encharcadas de Mourão. Na garrafeira exposta há, acredite ou não, praticamente todos os vinhos do Alentejo. Preço médio, 20 euros. Com vinho como é evidente.

Já lá tínhamos passado de dia, mas voltámos para jantar à noite. O teu guia, que guardas com um desvelo religioso, diz que lá na terra - em Borba - há um restaurante que merece uma visita. Vamos nisso. Depois de um périplo alentejano estamos cansados e apetece um jantar com sabores da região para recuperar.

Monsaraz é terra bonita e abriu-nos o apetite. Vila Viçosa está cada vez mais bonita e elegante, vestida de mármores coloridos e muito polidos. Tem um ar frio, ainda mais hoje que chove a potes, mas deve ser um paraíso nos dias escaldantes no Verão. Estremoz também é terra de muitos atributos, mas já lá vamos. Agora estamos em Borba, nas ruas estreitas e encharcadas pelo temporal, de nariz levantado em busca da placa que não aparece. E de repente, sem querer, ouvimos um rumor que chega por uma fresta de uma porta mal fechada. Tu achas que é ali. E se tu achas é porque é mesmo. És de poucos enganos. Deve ser a tal intuição feminina. Era mesmo! Mais uma surpresa. Estamos numa adega gigante, com as enormes talhas encostadas à parede e meia dúzia de mesas a preencher a sala. Da cozinha sai um jovem cheio de genica e agradáveis iguarias num equilíbrio instável que acaba numa das mesas com gente ansiosa pelo petisco.

É uma adega especial onde ainda se fabrica o conhecido vinho da região. De aspecto simples e castiço, esta casa com bancos e mesas de madeira oferece uma enorme variedade de pratos típicos do Alentejo: Cacholeira Assada, Sopa de Cação, Bacalhau à Talha, Migas Alentejanas, Cacholas, Burras Assadas no Forno, Ensopado de Borrego, Cozido de Grão ou Carapaus Fritos com Miolos de Tomate. Para sobremesa: Sericáia com Ameixa, Leite Creme com Bolacha, Doce de nata e Pudim de Ovos. Encerra de Agosto a Outubro. Nestes meses fabrica-se vinho lá na casa. E é óptimo!

O jovem, bem humorado, fica satisfeito quando lhe dizemos que viemos aconselhados pelo roteiro da Visão que lhe atribui boa fama. Ai é? Bem já cá esteve o José Hermano Saraiva a gravar um programa. Lembram-se? Não nos lembramos. Agora isto. Um dia destes um jogador marca um golo, levanta a camisola e lê-se: Restaurante a Talha, em Borba. Teve graça o rapaz, mas não me parece. Os patrões da bola já acabaram com esse tipo de entusiasmos. Não lhe dizemos, depois de nos servir com tal simpatia não merece o desgosto. Preço médio, 5 euros. Parece mentira.

E depois de tantos atropelos à dieta, que juramos só trair aos fins-de-semana, acabamos em repouso no local que nos levou ao Alentejo. O Monte dos Pensamentos em Estremoz. Os proprietários são simpáticos e afáveis, e o local tem o que procuramos, um silêncio quase total. Casa rústica e muito bem decorada dentro do estilo da região, tem quase todos os luxos que se pedem num local vocacionado para o turismo com cores rurais. Os preços são simpáticos e o conselho não pode ser outro: ideal para quem está em fuga desesperada da canseira urbana. Ali ao lado está Estremoz, cidade de muitos encantos e que merece uma visita atenta e demorada.

Quem vem de Estremoz, vira em direcção a Lisboa mas não entra na auto-estrada. Logo a seguir vira à direita e ALTO.... a 50 metros, rigorosamente, está a entrada do Monte. Se não abrandar acontece-lhe o mesmo que a nós... demoramos mais um bocadinho. Já sei miúda, a culpa é minha. Falta-me a intuição. És mesmo distraído!

Pois sou!

Torreira


Foto retirada do Site da Junta Freguesia Torreira






Cruzámos o temporal em marcha lenta. Às apalpadelas. O desconhecido é assustador, ainda mais quando vamos tocados a vento e com a chuva a impedir um olhar mais atento. Mais limpo. As águas da ria - que em Aveiro andam mansas - passam a correr na Torreira, num rumor de borrasca que naquele dia prometia durar a noite toda. Pura ilusão - mais uma. Quando entramos no quarto para um repouso desejado, deliciados com a beleza das coisas mais simples, já as águas beijam a varanda da Pousada (da Ria), lentas e respeitosas do silêncio que procuramos.

As descobertas têm um encanto no próprio ritual. É a isso que nos dedicamos quando acabamos as formalidades da recepção e entregamos as malas ao quarto tranquilo.

Há uma sala larga, com vidros gigantes que servem de miradouro para a ria. A lareira vai devorando madeira e devolvendo um suave calor, que nos conforta o corpo cansado e nos amolece ainda mais. Há uns imensos sofás, de tecido colorido já coçado, que são muito confortáveis. Umas almofadas fofas e uns cadeirões de verga. As madeiras e a pedra que revestem as paredes - onde há moliceiros em miniatura pendurados, pois claro -, e os estores de palhinha, completam um cenário muito bonito e confortável. No mesmo piso, mas numa outra sala ao lado, há ainda uma pequena lareira enquadrada por um minúsculo sofá e respectivos cadeirões - que, no caso, são cadeirinhos. Se descermos uma curta escadaria estamos num bar imenso, com uma pequena, agradável e silenciosa sala de jogos. O xadrez está gasto e em sossego. As casas de banho estão impecavelmente limpas.

Resta descobrir o quarto. Há-de ser pela manhã, quando o sol nos entrar pela janela sem pedir licença, bem cedo, que vamos descobrir a beleza de um espaço simples. O encanto, tal como o diabo, esconde-se nos detalhes.

As paredes são claras. A cama, em madeira, está propositadamente mal pintada num tom muito suave de castanho. O resto do mobiliário, também ele intencionalmente sem primores de pintura, é branco. Não está sujo mas parece. É mesmo assim. A longa janela é linha de fronteira para a fria varanda de pedra, e linha de passagem para uma visão que nos deslumbra e nos devolve a paz que o stress insiste em roubar. Maldito stress!, hoje ficas lá fora. As águas ainda estão levemente tingidas de castanho, mas correm tranquilas no canal e mostram bancos de areia cheios de actividade. Há uns homenzinhos, de galochas e oleado, que andam a pé, em busca do que a ria lhes dá, e uns barcos a motor que passam apressados e cruzam o espelho prateado das águas da Torreira. Os moliceiros, coloridos, e que servem de emblema à região, estão num baloiçar suave, embalados pela turbulência das ondas que nascem na pressa dos barcos que passam. O enorme cordão dunar, ao fundo, é morada para uma vegetação característica e para uma bicharada irrequieta: garças, patos, galinhas-de-água e mergulhões. Belo som que nos mandam sem pedirmos. Sabe bem tanta tranquilidade. Bela escolha que fizeste, gostei da surpresa. Pensei que brincavas quando disseste que me levavas para o paraíso. Não deve andar longe, o verdadeiro.

Tomar o pequeno almoço com uma visão idílica, em marcha lenta, é um tónico irrecusável. Amanhã já falamos deste momento com uma saudade imensa, é melhor aproveitarmos agora que cá estamos. Viver agora para recordar depois. O dia está solarengo, a luz, imensa, entra por todo o lado e torna as cores mais fortes e presentes. Lindo dia num sítio fantástico. Os empregados são gente calma, tranquila, simpática e profissional. Nada nos falta, nem um sorriso. Devolvemos a chave com o peixe de madeira a segurá-la na boca, e já se nos aperta o coração. Apetece ficar umas semanas. Entrar arrasado e sair novo em folha. Ainda espreitámos o menu regional da Pousada, mas já decidimos que vamos à Costa Nova provar o arroz de marisco da Praia do Tubarão. Ainda estou indeciso. No menú sucedem-se as tentações com nomes simples; caldeirada de enguias, espetada de mexilhão, feijoada de leitão e ovos-moles para a sobremesa. Ficamos ou seguimos? Não ficamos, ficamos para a próxima. E vai haver próxima, que não reste a mínima dúvida. Gosto sempre de estar contigo. Mais ainda no paraíso, ou perto dele.

A Torreira está ligada à arte xávega desde o séc. XIX. Empresas proprietárias de juntas de bois que puxavam os barcos e as redes para terra. Já há mais de cem anos empregavam cerca de sete mil pessoas. A faina, diária, obrigava ao arrasto permanente de barcos com quase meia centena de homens, e redes com mais de 15 metros de comprimento. É da água que vivem os donos da ria, é nela que se divertem nas férias. São de boa memória as festas, em Julho ou Agosto, com a regata dos típicos moliceiros, que termina em Aveiro. Mais abaixo, junto a São Jacinto, com Aveiro à vista, há uma Reserva Natural com quase um quarto de século. É morada permanente da raposa e da gineta, e ainda de outros animais; lagartixa, cobra-de-água, rola-brava, pato-real, mergulhão, garça, pato-trombeteiro, e os raríssimos pato-de-bico-vermelho e frisada. Bicharada que se esconde entre os canaviais, a pateira, as dunas e a floresta.

Já rolamos pela estrada - encharcada e brilhante -, rumo à Costa Nova. Estamos perto, mas a configuração das dunas obriga a uma viagem de alguns quilómetros. Vamos à volta porque não há passagem para as famosas praias de Aveiro, que ficam em linha de vista. Os terrenos que ladeiam a estrada estão encharcados. A ria que sobe, e a chuva que não pára, ensoparam as terras. Há casas com lagos no jardim, e jardins que alagam as casas. Há moliceiros com pinturas de muita arte, salinas que queimam os pés descalços de gente com a pele torrada pelo sol, há ovos moles em anúncios de supermercado, peixe para todos os gostos oferecido em frases brancas na ardósia preta e muita água no horizonte. E há uma Pousada da Ria, na Torreira, que já ficou para trás mas que não me sai da memória. Fui sem saber para onde ia, e agora sei que lá quero voltar. Contigo, claro! É contigo que me sinto sempre melhor, mesmo nos sítios piores.

O Cabo...dos encantos


Fotos de Cabo Verde
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É a segunda vez que vou e a segunda vez que me custa voltar. Sei que será sempre assim. O aroma adocicado que paira no ar, o calor dos trópicos que nos aquece a alma embalada pelo som sempre presente das mornas e coladeras, e o mar sempre morno, são razões mais que suficientes para uma paixão assolapada.

Mas é a Morabeza que não nos deixa sair de Cabo Verde sem um aperto no coração. É a Morabeza que nos faz cativos de um povo que já foi escravo e que se libertou do jugo europeu, mas que continua prisioneiro de uma forma de estar única e inimitável. A Morabeza é uma forma rara de amar e respeitar os outros, o doce sabor de um sorriso aberto sem complexos, um olhar lento e demorado que nos envolve e nos despe de preconceitos, raciais e afins. Morabeza é receber com carinho e alegria, simpatia. É receber apenas, e esperar que o encanto das gentes das ilhas faça o resto.

É impossível chegar com espírito europeu. A sujidade das ruas sem rigor na esquadria, as casas eternamente inacabadas e sempre longe do conforto, o horizonte árido, pedregoso e poeirento seriam visões e emoções insuportáveis. Não há moda em Cabo Verde. Há roupas que se usam.

A beleza não é estética, é afectiva. Ao cabo verdiano, que odeia a violência dos badios, basta a pasmaceira de um dia cheio de calor, um banho salgado, uma morna ou uma coladera com um corpo quente e suado, uma fruta tropical, um coco fresco e um peixe bem regado por uma cerveja estupidamente gelada. Ao lado do café há sempre um grogue ou um ponche para queimar as impurezas da alma, e aquecer as purezas do coração.

O cabo verdiano é filho de mãe preta, pai branco e irmão de meninos arco-íris. É na cor mulata de café com leite, nos olhos verdes e nos cabelos claros que existe uma beleza única que deslumbra os olhares. A sensualidade das mulheres - de olhares lânguidos sem maldade, de passo descompassado e sensual e de malandrice no sorriso que provoca - é uma das maiores riquezas de um arquipélago mulato que já foi escravo, mas que ainda é prisioneiro da Morabeza que não perde. Ser mulher em Cabo Verde é ser embaixadora da beleza natural, sem maquilhagens e preconceitos.

Ser mulher é dar o corpo para ser usado com respeito por quem sabe embalar ao som de um ritmo invencível e contagiante. Não há Batuque, Finason ou Colá Son Jon que acabe sem companhia. Não há músicos solitários nas ilhas.

Longe vão os tempos das naus carregadas de escravos, das grilhetas de ferro, das plantações de algodão e tecelagens que marcaram os dias de outros tempos. Hoje os dias correm tranquilos, até demais. Tanto que, na pressa de seduzir, o cabo verdiano se esquece de agir, construir e amealhar. É por isso que cada porto e aeroporto é cada vez mais uma ponte para outros destinos. Menos belos, mais aliciantes. Cabo Verde vive da herança que ficou dos tempos coloniais. Não cuidou nem reconstruiu, não planeou e não agiu. Fugiu para o estrangeiro,ou ficou para receber como mais ninguém sabe fazer. Mas faltam condições para o conforto que parece não fazer falta mas será sempre bem recebido. Cabo Verde acordou à beira do segundo milénio para uma nova era. Com Morabeza sim, mas com ambição também. Não faz mal na dose certa. E um dia, perto deste que gasto numa prosa cheia de sodade, um dia vai ser impossível sair das ilhas de todos os encantos. Será o Cabo dos trabalhos, quando o Verde for mais forte e o pó assentar à beira de estradas asfaltadas. Quando as casas tiverem cor e todos os meninos usarem roupa e sapatos para aconchegar os pés bailarinos. Quando à beira do mar houver casas dignas do nome. Nesse dia, cada porto e aeroporto será pequeno para tantas chegadas. Cada filho di terra vai querer voltar ao ponto de uma partida que nunca desejou no coração mas se obrigou em consciência. E haverá lágrimas de alegria nos olhos grandes e bonitos de um povo que se enriquece de sorrisos... Lágrimas abençoadas para um povo que parece mais perto de Deus...mas mais longe da civilização.

É uma boa opção para as habituais viagens da Páscoa.